James Gunn já vinha dando seus pitacos no Universo da DC desde O Esquadrão Suicida e Pacificador, e após ser escolhido para ser o chefe criativo da DC Studios, ele prometeu diversos novos projetos para dar um reinício do universo compartilhado nos cinemas e tv, dando o ponta pé inicial curiosamente com a animação Comando das Criaturas, que no fundo é muito semelhante ao que ele já tinha feito na própria DC e na Marvel, com a trilogia dos Guardiões da Galáxia.
Com Superman as coisas mudam de figura, pois é além de ser um personagem muito mais emblemático e importante, não só na DC mas para cultura pop no geral, este filme será o real alicerce para todo o novo universo que Gunn vem planejando. Um escolha que faz total sentido, mas que carrega um peso enorme.
O longa começa com os meta-humanos (como são conhecidas as pessoas com superpoderes na DC) já estabelecidos a algum tempo, e com a presença de Superman revelada já a 3 anos. A cena inicial é justamente dele caindo na neve e pedindo ajuda para Krypto, mostrando que o herói não é totalmente invencível, e trazendo de cara uma quebra com a imagem onipotente tanto explorada e até deturpada que tivemos anteriormente nos cinemas.
Essa luta que Superman perde e o desenrolar posterior da trama é fruto das ações prévias do herói de se envolver num conflito armado entre duas nações fictícias: Borávia e Jahanpur. A primeira é aliada dos EUA, fortemente equipada com exército e armas, e está invadindo o território da segunda. Superman intervém evitando o estopim da guerra, e consequentemente muitas mortes, mas isso gera represálias da Borávia, da opinião pública e do governo dos EUA, devido aos acordos internacionais previamente estabelecidos.

Gunn prova que é possível fazer um filme de super-herói, extremamente colorido e cheio de ação, abordando temas atualmente relevantes e de forma madura. A comparação com o que vinha sendo feito com o personagem nas mãos de Zack Snyder é inevitável, pois para ele é necessário uma paleta de cores escura e dessaturada e colocar o personagem matando seu inimigo para ser um filme “adulto”, por exemplo. Quando na verdade não importa o que é colocado em tela, mas sim a maneira como isso é abordado.
E Superman está longe de ser um filme sobre geopolítica, é um filme de super-herói sem nenhuma vergonha disso, mas ao escolher trazer esses temas pra dentro do seu universo e colocar os personagens para lidar com essas situações que fazem eco com o mundo real, demonstra muita personalidade e coragem do diretor e roteirista.
A opinião pública se volta contra o herói a partir desse incidente, mas aproveita para questionar suas reais intenções no Planeta Terra, já que ele é um alienígena, ou em outras palavras, um estrangeiro. Esse questionamento coloca em xeque as próprias convicções do herói e de seu lugar no nosso mundo, e chega talvez nos principais temas do filme: bondade e esperança. A esperança não é um mero símbolo em seu peito, ou algo dito da boca pra fora. O próprio Superman é esse símbolo. Para as pessoas que ele salva diariamente em Metrópoles, para as pessoas que ele salvou no conflito em Jahanpur, e no final até para os outros heróis que se mobilizam por conta de suas ações. Isso é inspirar o próximo a fazer algo bom, algo em que se acredita ser o certo, independente de qualquer coisa.

O filme tem vários personagens secundários, e a maioria consegue se encaixar bem na trama. David Corenswet entrega tudo que se pode esperar do Superman, uma excelente escolha para o papel. Embora quase não o vejamos como Clark Kent, é perceptível sua mudança de atitude quando veste seu uniforme icônico. Nicholas Hount é simplesmente avassalador como Lex Luthor, existe uma fúria interna e um desprezo por tudo que Superman representa e finalmente temos uma encarnação do personagem nos cinemas que tem um plano inteligente. A Lois Lane Rachel Brosnahan tem uma ótima química com seu par romântico, mas isso não significa baixar a cabeça sem questioná-lo, o seu lado jornalístico fala mais alto e ela não fica de braços cruzados e vai para ação quando necessário.
A relação de Kripto com Superman também é ótima, e novamente traz uma humanidade ímpar para o personagem. A presença de outros heróis como o Lanterna Verde Guy Gardner (Nathan Fillion), a Mulher-Gavião (Isabela Merced) e o Senhor Incrível (Edi Gathegi), dão a sensação desse mundo estar vivo e repleto de seres incríveis, e eles acabam tendo um papel importante na trama, com destaque para o Senhor Incrível, que tem uma ótima cena de ação.
Como todo filme de herói que se preze, é necessário relevar algumas coisinhas que acabam simplificando a trama e suas resoluções, mas é possível fazer isso com um sorriso no rosto pois o seu entorno é ótimo. Por mais que tenha todo esse pano de fundo político Gunn nunca esquece que está fazendo uma adaptação de quadrinhos e toda a bizarrice que as vezes isso implica. Temos luta contra monstro gigante, portais que levam a um universo de bolso, porradaria franca no ar, etc, é como abrir um gibi de super herói e nunca saber o que vai encontrar virando as páginas. É uma maluquice deliciosa que só os gibis proporcionam, e que Gunn prova mais uma vez entender como ninguém, e sem ter vergonha disso.

As cenas de ação são até um tanto diferentes, pois tem muitos closes e angulações e giros de câmeras com as lutas acontecendo no meio em ritmo frenético, isso é algo que pode demorar pra se acostumar, mas prova mais uma vez que Gunn não estava afim de fazer só um arroz com feijão, ele vai com os dois pés na porta, errando ou acertando, ele dá a cara a tapa sem medo.
Sem entrar em spoilers, uma das cenas de luta representa claramente a luta do Superman contra todas as distorções sínicas do heróis como visto em obras como The Boys, Invencível, ou de própria autoria da DC como em Injustice. Para lembrar o que o herói realmente representa.
O novo Superman evoca o que há de melhor no personagem, e consegue ao mesmo tempo olhar pra trás e pro seu material fonte com carinho, mas apontando pra cima, em direção ao sol, abrindo caminho para esse novo universo DC brilhar.
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