Sonhos de Trem é um lançamento da Netflix que reúne novamente o diretor Clint Bentley e o roteirista Greg Kwedar, que trabalharam juntos no ótimo Sing Sing (2023), trazendo mais uma vez uma belíssima narrativa emocional.
Baseado no livro de mesmo nome escrito por Denis Johnson, o filme retrata a vida de Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador e ferroviário que leva uma vida de inesperada profundidade e beleza em uma América em rápida transformação do início do século XX.
Grainier é um homem muito simples e introspectivo, sem nunca deixar de ser gentil, o que contrasta com sua ocupação que exige força bruta. Ele parece muitas vezes deslocado naquele meio, mas acaba suportando o ambiente pela abundância de trabalho em meio a expansões ferroviárias. Isso se torna cada vez mais difícil depois de seu casamento com Gladys (Felicity Jones) e nascimento da sua filha. Ele sente que está perdendo a melhor parte de sua vida quando precisa ficar longos períodos em florestas isoladas apenas com outros operários.

O longa é narrado por Will Patton, e muitas vezes parece que estamos assistindo um audiolivro, e isso por incrível que pareça não é um demérito. Sua voz calma nos guia pela introspecção do protagonista e pelos causos que ocorrem no seu trabalho. Isso até dá um ar meio episódico ao filme, pois cada vez que ele está com na floresta trabalhando, sempre conhece alguém diferente e escuta suas histórias e visões de mundo.
O que ajuda a dar um clima ainda mais contemplativo ao filme é a belíssima fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, que com justiça recebeu sua indicação ao Oscar 2026. Ele usa de forma brilhante a luz natural, com pôr e nascer do sol muitas vezes recortando os personagens, sempre valorizando o ambiente bucólico. Várias cenas são iluminadas apenas por fogueiras ou velas, mas em nenhum momento o filme é escuro, um trabalho de primeiríssima qualidade.

Joel Edgerton faz realmente um trabalho muito bom, tendo o foco pra si quase o tempo todo, e em determinado momento quando uma tragédia acaba acontecendo ele precisa lidar com o trauma e o luto, mas nunca de maneira melodramática. Assim como ocorreu em Sing Sing, os realizadores rejeitam esse caminho fácil e batido.
Com uma narrativa tocante, que se apoia na passagem de tempo e na noção do legado das pessoas comuns para o avanço do país, Sonhos de Trem é belo filme, em todos os sentidos.
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