Hoje em dia escutar que um novo filme de vilão de algum herói está sendo produzido gera um frio na espinha, ainda mais quando a presença do herói sequer é mencionada. A Sony tem grande parte de culpa nisso com filmes como Venom, Morbius e Kraven, derivados do Homem-Aranha, entretanto a galeria de vilões do Batman tende a se sair melhor com Coringa e a série do Pinguim por exemplo.
Dito isso, o Cara-de-Barro, enquanto personagem, não está nem perto de chegar ao patamar desses medalhões bem mais conhecidos do universo do Homem Morcego. Talvez por isso a Warner e a DC Studios tenham decidido uma abordagem diferente para o longa, focando mais em seus aspectos de terror do que qualquer outra coisa.

A trama acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), garoto humilde de Gotham que vira astro de Hollywood. Sua ascensão meteórica é tragicamente interrompida quando as ações de um chefe do crime local o deixam horrivelmente desfigurado. Abandonado por sua equipe e sem nada mais, Matt busca um tratamento de ponta que, milagrosamente, o devolve ao que era antes… mas que também afeta inesperadamente sua percepção da realidade, levando-o a uma espiral destrutiva de vingança que o consome por completo.
O filme segue uma tendência recente dos filmes de terror mainstream de incorporarem elementos de body horror em sua narrativa, como os casos de A Substância (2024) e Juntos (2025), por exemplo. Não que Cara-de-Barro seja extremamente pesado, apesar da classificação etária alta por conta de violência e nudez, ele ainda é um filme dentro desse universo cinematográfico da DC. Isso pode decepcionar inclusive tanto o publico muito fã desse universo de heróis por não ver muito desenvolvimento desse mundo, representado por Gotham City, nem pelo fãs mais ferrenhos de terror, por não ser tão contundente.
O que o longa faz bem é construir o personagem principal, que com suas qualidades e defeitos, tem um caminho tortuoso e bem definido para o fundo do poço. Sua jornada é a de se tornar de fato um vilão, não existe margem para chamá-lo de anti-herói. Claro, é possível entender suas motivações e ter certo tipo de empatia por Hagen, mas no final suas escolhas o levam para um caminho sem volta. E tudo isso é feito sem glorificar suas ações.

A atuação de Tom Rhys Harries é muito boa, conseguindo dar peso e nuance para o personagem nos momentos mais decisivos, e sua interação e química com a personagem de Naomi Ackie soa muito verdadeira.
Mesmo se vendendo como filme de terror, talvez a cena de maior destaque do longa seja uma de ação numa boate, que é bem divertida, com Hagen utilizando seus poderes ao máximo de formas muito inventivas, e claro, com aquele toque de violência bastante presente no filme.
Cara-de-Barro está longe de ser perfeito, mas acerta em cheio ao definir seu caminho baseado num gênero e personagem específico, trabalhando seus elementos de forma simples mas eficaz, que nos deixam com vontade de ver mais do que nos foi apresentado aqui, e todas as possibilidades que isso gera, pensando em outros personagens desse universo.



