A Odisseia de Homero é sem dúvida uma da obras mais famosos e influentes do mundo, não faltando adaptações e estudos a respeito do clássico grego. Nesse sentido, a missão auto-incumbida de Christopher Nolan de adaptar o épico faz sentido, já que ele é talvez o único diretor que conseguiria o investimento para um projeto deste tamanho.
A escala de todo o projeto é quase inacreditável para os padrões de Hollywood hoje em dia: as locações reais, a quantidade de figurantes e também de estrelas que compõem o elenco principal, por menor que sejam várias dessas participações.
Nolan, já acostumado a ter em seus filmes narrativas fragmentadas e fora de ordem cronológica, usa muito bem o recurso ‘In medias res‘ já presente no texto original, para narrar o conturbado retorno do protagonista Odisseu para sua casa após a Guerra de Troia. Contudo a passagem de tempo é muito mais dita, do que sentida. A guerra dura 10 anos, e o retorno de Odisseu dura mais 10 anos, e apesar disso ser bastante martelado no roteiro, visualmente não fica tão evidente.

Mesmo com praticamente 3 horas de duração, o ritmo é intenso, conseguindo mesclar cenas de grandes batalhas com ação, com outras mais voltadas para o drama e até mesmo com toques de terror, como na famosa cena do Ciclope Polifemo.
Contudo, mesmo com toda já conhecida perícia técnica do diretor, a sua visão do que é A Odisseia mostra sua inaptidão de lidar com as partes mais lúdicas do poema. Nolan mesmo incluindo vários elementos fantásticos, não se dobra a intervenção direta dos Deuses, parte fundamental do texto original. Inclusive tendo que justificar a “presença” de Atena ao longa da narrativa.
A própria personalidade de Odisseu, interpretado por Matt Damon, é meio deturpada. Ele é notoriamente conhecido por ser uma desconstrução do típico herói grego perfeito, tendo várias falhas e resolvendo seus problemas com a astúcia e inteligência, e não necessariamente com força bruta. Existe inclusive um paralelo claro com seu filme anterior, Oppenheimer (2023), onde o protagonista é assolado pela culpa do mal que ele ajudou a coloca no mundo, no caso anterior, bomba atômica, e aqui, a artimanha do Cavalo de Troia, curiosamente elevando status de Odisseu na guerra, quase como se ele próprio fosse um semideus.

Enquanto artista, Nolan tem todo o direito de dar sua visão sobre a obra, e claro adaptar aquilo que achar necessário ou conveniente, o problema é que sua visão acaba, invariavelmente em vários momentos, sendo asséptica. Ele não se permite abraçar o lúdico ou mergulhar no místico, o que nos da margem para questionar a escolha de adaptar A Odisseia pra princípio de conversa. Lhe falta coragem inclusive de negar totalmente esses aspectos e seguir um caminho totalmente oposto, que poderia até ser mais interessante, mas ele prefere apenas adotar aquilo que lhe convém, aquilo que é mais palatável para ser mais pé no chão.
Não é de hoje também que as personagens femininas de Nolan são bastante criticadas, na maioria das vezes por serem rasas, e isso acaba acontecendo também com a Penélope de Anne Hathaway. Sua personagem acaba ficando apenas se lamuriando, abordando basicamente o drama de ter que ficar esperando o retorno de seu marido, qualquer outra nuance da personagem é deixada de lado.
De toda forma, A Odisseia de Nolan é um grande filme, em vários sentidos, voltando sua atenção para a questão psicológica do protagonista e a decadência da sociedade, mas bastante questionável enquanto adaptação do clássico literário.



