Coyote vs. Acme tem já nos seus bastidores de produção e lançamento uma história bem curiosa sobre a indústria cinematográfica. Anunciado em 2018, filmado em 2022, e com previsão de lançamento em 2023, o longa dos Looney Tunes acabou sendo engavetado pela Warner Bros. que não teria ficado satisfeita com o resultado final e também devido a cortes de custos encabeçado pelo CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav. Caso parecido com o que houve com o filme cancelado da Batgirl. O filme então, depois de muita pressão externa, conseguiu ser adquirido pela Ketchup Entertainment, que finalmente colocou ele nos cinemas norte-americanos, e negociou a distribuição internacional, no caso do Brasil feito pela Paris Filmes.
A trama acompanha Wile E. Coyote, que, após produtos Acme falharem inúmeras vezes em sua busca pelo Papa-Léguas, decide contratar um advogado para processar a Acme Corporation. O caso coloca Coyote e seu advogado (Will Forte) contra o intimidador ex-colega de faculdade (John Cena), e disso tudo cresce uma amizade improvável entre o advogado e o desenho animado, que alimenta a determinação deles em vencer o caso.
Ver um híbrido de animação com live-action dos Looney Tunes, que seja bom, era coisa de um passado distante, algo que não acontecia desde o primeiro Space Jam (1996). Pensar que esse filme poderia ter sido completamente pela Warner chega a ser absurdo.

O diretor Dave Green e o seu time de roteiristas composto por James Gunn, Jeremy Slater e Samy Burch, usaram como base o artigo de 1990 da revista New Yorker, escrito por Ian Frazier, que imagina como seria se o Coyote processasse a Acme, o que dado todo o contexto de lançamento do filme, chega a ser irônico e não deixa de dar uma nova camada ao filme. Na trama a Acme tenta de todas as formas silenciar o Coyote usando seu recursos quase infinitos, e ele precisa lutar pra conseguir ser ouvido (mesmo que não fale e só se comunique por placas).
Um dos grandes acertos é realmente focar no Coyote e na sua ânsia de capturar o Papa-Léguas, ao longo do filme vários outros grandes personagens tem seu tempinho de tela muito bem aplicado na narrativa, como Patolino, Frangolino, Piu-Piu e claro, Pernalonga, fora os tantos outros que fazem pequenas participações, mas toda a construção da relação do Coyote com o advogado Kevin Avery, e no final uma nova perspectiva sobre sua relação com o Papa-Léguas é ótima.
É impossível não associar todo o contexto do advogado meio preguiçoso e charlatão na cidade de Albuquerque, com Saul Goodman de Breaking Bad e Better Call Saul, sem dúvida uma grande inspiração, mas quando a trama começa a se desenvolver também como um suspense corporativo, o personagem ganha seus méritos próprios. John Cena como o contraponto malvado é excelente, seu timing cômico é muito afiado, o que deixa ele bem a vontade.

A parte técnica, que mistura o live-action tanto com animações 2D tradicionais e também 3D, é surpreendente boa, talvez um dos mais bonitos nesse sentido, sem falar nos diversos efeitos práticos como explosões de carro ou paredes sendo demolidas, que é como seria se nosso mundo tivesse desenhos animados andando livremente por ai.
Todo o filme é extremamente respeitoso com o legado histórico dos personagens, trazendo inclusive vários trechos dos desenhos antigos, mostrando várias vezes que o Coyote se deu mal, ou utilizando a trilha sonora clássica em alguns momentos. Em nenhum momento o filme se esquece que é uma comédia, também dos elementos dos desenhos que fizeram os Lonney Tunes serem tão amados: foguetes explodindo, pedras gigantes, bigornas, marretas, e tudo isso funciona muito bem.
Por fim, a “dramédia” de tribunal construída ao longo do filme, mesmo que meio clichê é realmente comovente sem deixar de alfinetar novamente as grandes comparações que esmagam as pessoas comum com grandes recursos e aparatos jurídicos ao seu favor. Coyote vs. Acme é uma ótima opção de entretenimento para toda família que exalta a força e carisma desses personagens de uma forma muito inusitada e inventiva.



