Depois de vencer o Oscar por Nomadland (2020) e embarcar em uma super produção como Eternos (2021), a diretora e roteirista Chloé Zhao deu uma freada em sua carreira, ficando alguns anos sem filmar um longa. Ela retorna com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, uma tocante história que traz um prisma completamente diferente para um recorte na vida de William Shakespeare.
O longa é uma adaptação do romance homônimo de Maggie O’Farrell, sendo uma ficção histórica que gira em torno de Agnes (Jessie Buckley) – a esposa do escritor mais famoso do mundo, Shakespeare (Paul Mescal) – enquanto ela luta para aceitar a perda de seu único filho, Hamnet. O romance traça as consequências emocionais, familiares e artísticas dessa perda.

A decisão por esta adaptação em si já é muito interessante, pois qualquer coisa que envolva Shakespeare o coloca em primeiro plano, mas aqui a protagonista de fato é Agnes, que mutas vezes era deixada de lado, ou sequer mencionada no registros históricos.
A introdução cuida do desenvolvimento do romance entre os jovens, da dificuldade em lidar com suas famílias e dos possíveis empecilhos dessa união, algo que ecoa um pouco Romeu e Julieta, de alguma forma. Mas não ficamos presos a isso mais que o necessário, as passagens de tempo são bem ágeis, geralmente marcadas pela gravidez de Agnes.
A relação de Shakespeare com a família é extremamente amorosa, mas seus próprios demônios internos o assolam, ele anseia mais do que uma vida bucólica, ele precisa ir para Londres e mostrar sua arte para as pessoas, algo que seu pai não consegue entender, mas Agnes o apoia, mesmo sabendo que isso pode distanciá-lo.

Assim como em Nomadland ou Domando o Destino (2017), Zhao mostra seu maior potencial se debruçando na intimidade de seus personagens, nos mostrando suas alegrias e dores de forma muito singela e direta, com alguns leves toques de algo mais onírico.
Jessie Buckley tem um grande desafio em mãos e mostra porque é uma das maiores atrizes de sua geração, sem nenhum tipo de exagero. Ela consegue transmitir todas as nuances de sua personagem de forma muito honesta, desde momentos mais íntimos e introspectivos aos de maior explosão emocional. Paul Mescal é um coadjuvante de luxo, mas era muito importante que sua presença não ofuscasse Agnes, e ainda bem que isso não ocorre.

Tudo culmina para no final comtemplarmos o produto da dor de Shakespeare, ele enquanto artista, e um dos maiores que já existiram, só poderia colocar isso pra fora de um jeito, que é a peça Hamlet. Seu luto virou uma das maiores e mais influentes obras de todos os tempos, e vemos isso não do seu ponto de vista, mas do de Agnes, que ao ser uma das expectadores da peça, assim como nós, consegue entender os sentimentos do marido, que não conseguia se expressar de outra forma.
É dolorido, mas ao mesmo tempo belíssimo. Um retrato muito fiel do luto e de como a arte sim pode transformar, não só a pessoa em si, mas também romper barreiras e tocar diversas gerações.
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