PUBLICADO EM 04/08/2025

Juntos

 

Juntos

Após o sucesso de Titane (2021) em Cannes e A Substância (2024) na temporada de premiações do ano passado, Juntos, filme dirigido e escrito pelo estreante Michael Shanks, mostra que o terror corporal parece estar em alta novamente.

No longa, uma mudança para uma cidade isolada do interior testa os limites da já conturbada relação de Tim e Millie (Dave Franco e Alison Brie). O que poderia ser uma oportunidade para recomeçar logo se transforma em um verdadeiro pesadelo, quando uma força sobrenatural começa a corromper sua relação, suas mentes e seus corpos, os forçando a ficarem juntos, literalmente.

O subgênero de terror corporal parece muitas vezes deixado de lado pelo mainstream, relegado a produções menores, provavelmente porque acaba distorcendo a imagem do ser humano, sendo algo mais nojento e incômodo do que propriamente assustador. Em Juntos temos uma progressão do cenário isolado assustador, alguns jump scares e um vislumbre de seita oculta, antes de mergulhar de cabeça do terror corporal, o que mostra um repertório interessante.

É possível reconhecer bastante inspiração do mestre desse gênero, David Cronenberg, mas também algo de Junji Ito, mangaká conhecido por suas obras de horror que muitas vezes incluem dismorfia corporal e principalmente a obsessão, que no filme é ilustrada pela relação do casal.

O relacionamento instável do casal é o cenário perfeito para a analogia da obsessão e codependência. Vemos que Tim está frustrado, por problemas no trabalho e traumas pessoais, a ponto de isso atrapalhar até sua vida sexual com Millie. A atração forçada entre eles acaba sendo tanto um catalisador para uma possível reconciliação quanto uma maldição.

O fato de Franco e Brie serem um casal na vida real ajuda na química entre o casal fictício, por mais que eles estejam passando por momentos difíceis o carisma e naturalidade deles na tela faz com que compremos essa relação complicada.

Há na relação dos dois um medo de se enxergar no próximo, daquele que não se arrisca a viver o seu sonho ou daquele que se acomoda com uma vida simples e comum. Depois de tanto tempo juntos, eles temem não ter personalidade própria, e viver em função um do outro, e isso se reflete novamente na situação bizarra pela qual estão passando.

O filme, com tudo que o envolve, ainda tem alguns raros momentos leves e cômicos, e curiosamente a mensagem final pode ser interpretada como algo positivo, mesmo que seja visualmente bizarra. A construção da mitologia que envolve todo a situação é dada na medida certa, nem muito, nem pouco, o suficiente para instigar a audiência.

Juntos é ótimo por conseguir transformar a relação do casal no horror visual, sem tentar ser muito profundo, mas bebendo de ótimas fontes e jogando pra escanteio qualquer sutileza da metáfora aplicada.

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SOBRE O AUTOR

Vinicius Lunas

Um rapaz simples de gosto requintado (ou não). Curto de tudo um pouco (cinema, tv, games, hq, música), bom em particularmente nada. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, mas desde os 14 anos formando um bom gosto musical.

 

 


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