PUBLICADO EM 06/08/2025

Os Enforcados

 

Os Enforcados

Depois de trabalhar em O Lobo Atrás de Porta (2013) e Castelo de Areia (2017), o diretor Fernando Coimbra voltou seu foco para as séries de tv, e retorna agora ao cinema com Os Enforcados, co-produção entre Brasil e Portugal que mistura suspense com toques de comédia.

Na trama, Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos) tentam de alguma forma sair dos negócios sujos da família, envolvida no Jogo do Bicho. Mas ao mesmo tempo, o casal também têm despesas e dívidas ​​para quitar e o tio de Valério, Linduarte (Stepan Nercessian) insiste que o sobrinho assuma o negócio. Numa noite acidental, os dois encontram uma solução para o problema: matar o tio e vender o negócio. Mas ao fazer isso, mergulham ainda mais na violência da qual queriam escapar.

O diretor, e também roteirista, disse em entrevistas sua inspiração em Macbeth, de William Shakespeare, e é muito interessante ver essa releitura de uma obra clássica no Rio de Janeiro contemporâneo. Coimbra nunca vai tão a fundo no drama, e nunca perde o senso de humor, de certa forma intrínseco ao povo brasileiro, trazendo um frescor para a narrativa, que avança num ritmo muito bom, fazendo as 2 hora passarem voando.

Existe uma atmosfera que também lembra um pouco Fargo, dos Irmãos Coen, como uma legítima “dramédia de erros”. Se a motivação para a ação era tentar viver uma vida mais tranquila, a cada passo que o casal dá eles vão de encontro a sua possível ruína. E isso também se reflete também no relacionamento conjugal deles. Existe a tentativa de apimentar a relação com encenação na hora do sexo, mas é perceptível que existe uma relação abalada, que transparece ainda mais com os problemas financeiros.

Valério, que toma a iniciativa de querer sair fora dos esquemas do Jogo do Bicho, quando se vê numa posição superior, mesmo cercado de problemas, acaba gostando daquilo, como deixa claro a cena na escola de samba onde é coroado.

Tanto Leandra Leal quanto Irandhir Santos estão ótimos em seus papéis, com ela sendo um pouco mais expansiva e cheia de trejeitos de uma madame rica, e ele um pouco mais contido, que aos poucos começa a ter revelar seus demônios internos. O elenco de apoio é ok, com destaque para Nercessian e Irene Racache, que interpreta a mãe da Regina.

Coimbra também brinca um pouco com o teor exotérico, proveniente da consulta de tarô e questão dos protagonistas lerem os sinais que definem os seus destinos, ou na verdade do que eles acham que são sinais, mas apenas aproveitam as oportunidades para fazer aquilo que irá lhes dar alguma vantagem. O diretor também brinca com os significados de ‘enforcado’, já que o condenado a essa morte não consegue escapar sem ele próprio acabar se sufocando no processo.

Os Enforcados traz uma ótima releitura de Shakespeare, mas não apenas isso, mostra um relacionamento complicado de um casal que tenta manter as aparências a qualquer custo, mesmo que acabem representando papéis que não cabem a eles e se percam durante o processo.

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SOBRE O AUTOR

Vinicius Lunas

Um rapaz simples de gosto requintado (ou não). Curto de tudo um pouco (cinema, tv, games, hq, música), bom em particularmente nada. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, mas desde os 14 anos formando um bom gosto musical.

 

 


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