Paul Thomas Anderson tem uma filmografia cinematográfica invejável, mesmo sem ser tão prolífico, ele deixa sua marca em longas que muitas vez vezes falam de momentos passados e nostálgicos, como seus dois trabalhos mais recentes Licorice Pizza (2021) e Trama Fantasma (2017). Em Uma Batalha Após A Outra, contudo, o cineasta mostra um retrato atual, cru e aterrador da sociedade norte americana.
A trama é baseada no livro Vineland de Thomas Pynchon, acompanhando Bob (Leonardo DiCaprio), um ex-revolucionário que se vê obrigado a contatar colegas do passado na esperança de recuperar a própria filha (Chase Infiniti), que é alvo de um inimigo do passado (Sean Penn).
O livro de Pynchon, lançado em 1991, se passa durante os anos 80, então o cineasta precisou adaptar e atualizar a trama para os dias atuais e fez isso com maestria, estabelecendo já no prólogo as questões raciais e de imigração. Por mais que as vezes as coisas pareçam exageradas, não há nada ali que já não tenhamos visto nos noticiários em alguma escala, Thomas Anderson apenas extrapola e imagina como seria o cenário sociopolítico a partir disso.

Falando dessa forma parece até algo extremamente complicado e chato, mas muito pelo contrário, toda a ação é super envolvente e o clima de tensão é construído perfeitamente junto com a trilha sonora, que é algo mesmo tempo angustiante e instigante.
Após esse prólogo, onde as peças são colocadas no tabuleiro nesse cenário pseudoapocalíptico, as atenções se voltam para o personagem de DiCaprio, que após uma passagem de tempo de 16 anos, vê sua vida completamente diferente da outrora agitação revolucionária. Ele se torna um pai de meia idade, bêbado e viciado, que agora precisa de alguma forma se colocar nos eixos para proteger sua filha. Isso coloca uma camada de humor ao filme, pois é impagável ver ele tentando fugir das autoridades, mesmo estando completamente perdido e fora de forma, ou tentando lembrar de senhas e códigos secretos após anos de fora de circulação.

Resumindo, ele é o completo oposto do que se espera de algum herói revolucionário, estando muito mais próximo de um doidinho de bairro. É sem dúvida mais uma grande atuação de DiCaprio. Em contraponto temos o Coronel Steven J. Lockjaw, personagem de Sean Penn, encarnando um supremacista branco, cheio de trejeitos e tentando toda hora se reafirmar como ser dominante. De alguma forma a atuação dele consegue transparecer toda a sua arrogância, hipocrisia e insegurança, fazendo seu personagem ser asqueroso, odioso e patético ao mesmo tempo.
Thomas Anderson filmou em VistaVision, ampliando a qualidade da imagem e nível de detalhes na imagem, e ele usa muito closes no rosto dos personagens, muitas vezes ampliando essa sensação de inquietude, angustia ou confusão mental.

O elenco de apoio é ótimo, contando com Benicio Del Toro, Teyana Taylor, Regina Hall mas nenhum deles tem grande desenvolvimento, servindo pontualmente apenas para trama andar. A novata Chase Infiniti consegue segurar muito bem as pontas quando é exigida, e sua relação de pai e filha com DiCaprio é um diferencial muito positivo.
Uma Batalha Após A Outra toca em feridas abertas da nossa sociedade, com cutucadas a ambos os lados, sem perder a mão ou ficar em cima do muro. O título não poderia ser mais acertado, a luta contra a repressão nunca pode acabar, e a única esperança recaí sempre na próxima geração.
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