Após o sucesso de Titane (2021) em Cannes e A Substância (2024) na temporada de premiações do ano passado, Juntos, filme dirigido e escrito pelo estreante Michael Shanks, mostra que o terror corporal parece estar em alta novamente.
No longa, uma mudança para uma cidade isolada do interior testa os limites da já conturbada relação de Tim e Millie (Dave Franco e Alison Brie). O que poderia ser uma oportunidade para recomeçar logo se transforma em um verdadeiro pesadelo, quando uma força sobrenatural começa a corromper sua relação, suas mentes e seus corpos, os forçando a ficarem juntos, literalmente.

O subgênero de terror corporal parece muitas vezes deixado de lado pelo mainstream, relegado a produções menores, provavelmente porque acaba distorcendo a imagem do ser humano, sendo algo mais nojento e incômodo do que propriamente assustador. Em Juntos temos uma progressão do cenário isolado assustador, alguns jump scares e um vislumbre de seita oculta, antes de mergulhar de cabeça do terror corporal, o que mostra um repertório interessante.
É possível reconhecer bastante inspiração do mestre desse gênero, David Cronenberg, mas também algo de Junji Ito, mangaká conhecido por suas obras de horror que muitas vezes incluem dismorfia corporal e principalmente a obsessão, que no filme é ilustrada pela relação do casal.
O relacionamento instável do casal é o cenário perfeito para a analogia da obsessão e codependência. Vemos que Tim está frustrado, por problemas no trabalho e traumas pessoais, a ponto de isso atrapalhar até sua vida sexual com Millie. A atração forçada entre eles acaba sendo tanto um catalisador para uma possível reconciliação quanto uma maldição.
O fato de Franco e Brie serem um casal na vida real ajuda na química entre o casal fictício, por mais que eles estejam passando por momentos difíceis o carisma e naturalidade deles na tela faz com que compremos essa relação complicada.

Há na relação dos dois um medo de se enxergar no próximo, daquele que não se arrisca a viver o seu sonho ou daquele que se acomoda com uma vida simples e comum. Depois de tanto tempo juntos, eles temem não ter personalidade própria, e viver em função um do outro, e isso se reflete novamente na situação bizarra pela qual estão passando.
O filme, com tudo que o envolve, ainda tem alguns raros momentos leves e cômicos, e curiosamente a mensagem final pode ser interpretada como algo positivo, mesmo que seja visualmente bizarra. A construção da mitologia que envolve todo a situação é dada na medida certa, nem muito, nem pouco, o suficiente para instigar a audiência.
Juntos é ótimo por conseguir transformar a relação do casal no horror visual, sem tentar ser muito profundo, mas bebendo de ótimas fontes e jogando pra escanteio qualquer sutileza da metáfora aplicada.
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