O cinema brasileiro vive um momento muito especial, principalmente no que diz respeito a visibilidade internacional. Ainda Estou Aqui fez história ao levar o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025 e de toda repercussão em torno da grande atuação de Fernanda Torres, premiada no Globo de Ouro 2025.
Seguindo nesse embalo, O Agente Secreto conseguiu algo muito difícil, levar dois prêmios no Festival de Cannes 2025, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho, além de garantir distribuição internacional pela Neon. Tudo isso, como já aponta crítica especializada, impulsiona o filme para ele seguir forte nas exibições em festivais e chegar no Oscar 2026 com chances reais de premiação.
Independente do que acontecer, ver filmes e realizadores brasileiros talentosos terem um merecido reconhecimento é muito satisfatório. E isso sem dúvida gera interesse e fomenta ainda mais a nossa indústria, mostrando que temos potencial e uma pluralidade cinematográfica muito rica, não apenas pontos isolados.

Falando do filme em si, o longa se passa em Recife de 1977, quando Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia marcado por um passado que insiste em assombrá-lo, retorna à sua cidade natal em busca de redenção. O que ele encontra, porém, é um Brasil dilacerado pela ditadura militar, em que os traumas da repressão política se confundem com suas próprias cicatrizes pessoais.
Apesar de também se passar nos anos 70 e ter como pano de fundo a Ditadura Militar, a proposta e abordagem de Kleber é muito diferente de Walter Salles. Primeiramente porque o diretor de Bacurau (2019) e Aquarius (2016), tem uma assinatura muito marcante e peculiar, sempre imprimindo uma dose de humor e estilização de gêneros em seus filmes, nesse caso um thriller policial/espionagem abrasileirado.
A recriação e ambientação de Recife dos anos 70 é absurda, a riqueza dos cenários e dos figurinos é uma das melhores que o cinema nacional já viu, e isso é fundamental para mergulhar de cabeça nesse história, que nos é apresentada numa estrutura não linear. O filme toma o tempo necessário pra essa ambientação e apresentação dos personagens, sem se apressar ele vai colocando as peças no seu tabuleiro para poder brincar a vontade.
Isso faz o filme ser bem longo, com suas 2h40, mas quando parece que essa duração elevada vai começar cansar, o ritmo da reta final se intensifica, com uma tensão muito elevada, digno de qualquer filme de ação que passe numa sessão de Domingo Maior, onde a segunda-feira já está te puxando para o sono, mas o final do domingo ainda te coloca em pé te mantem acordado.

O apreço que Kleber tem por esse tipo de cinema mais fantasioso, flertando com o horror e o grotesco, como no seguimento impagável da “perna cabeluda”, mostra todo seu apreço pela sétima arte no geral. Não apenas aquele cinema de alto nível, mas aquele também mais pé no chão, sujo, meio trash mesmo, que se encontrava nas sessões de cinema de rua, cada vez mais escassas hoje em dia.
No meio disso tudo, Kleber encontra tempo para desenvolver um drama de um pai que quer apenas se reencontrar com seu filho em meio a um país em caos, crítica grandes corporações e da importância da memória coletiva e individual, onde muitas vezes momentos são esquecidos, ou simplesmente apagados a força, e precisamos nos lembrar para não cometer os mesmos erros.
A atuação de Wagner Moura é de fato um ponto chave do filme, ele sabe dar o peso devido a tudo que o seu personagem vivendo, mas de uma maneira muito contida e delicada, sem exageros ou muitas firulas. E temos algumas vertentes disso pois vemos ele tanto no presente do filme como no passado.
Com seu cinema estilizado, uma edição afiada e uma narrativa muito instigante O Agente Secreto é uma grande homenagem a tudo aquilo de que Kleber Mendonça Filho adora. As vezes violento, as vezes divertido, um caos controlado, mas muito competente e bem executado.
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